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Bota de Perna Martim Cererê

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Bota de Perna

2015

Goiânia/GO

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Há quase quatro anos atrás, em julho de 2011, assisti ao primeiro show da The Galo Power. Apesar de não conhecer nenhuma das suas músicas e ignorar que, poucos meses antes, eles lançavam o seu primeiro EP, fiquei boquiaberto tanto pela presença de palco da banda, quanto pela massa sonora que emanava dos altos falantes: uma frenética mistura dos diversos elementos musicais que caracterizaram os trabalhos das bandas do final dos anos 60 e início dos 70: funk, blues, soul. Adicionado a isso, o contraste entre vocais masculinos rasgados e um belo vocal feminino. Considerando que eu os assistia em Jataí (Inclusive, cidade natal de alguns dos membros da banda), no interior de Goiás, tive a sensação de que os memoráveis shows do Led Zeppelin, Rolling Stones, Joe Cocker (Entre outros), que assistíamos em DVDs, haviam se tornado realidade e eram, pela primeira vez, palpáveis para um público de uma cidade de interior. Na cena rock de Goiânia, o Galo Power tornava-se uma das principais bandas: na cena brasileira, seu nome começava a despontar.
Depois desse memorável show, e após perder o contato com eles por certo tempo, os reencontrei em junho de 2014, no Martim Cererê. Já era uma nova formação no palco: foram-se embora os vocais femininos, dignos de referência e comparação com Janis Joplin e Merry Clayton (Pra quem não conhece, Merry foi a cantora imortalizada no dueto com Mick Jagger em ‘Gimme Shelter’), e presenciava-se a introdução de órgão em algumas das músicas, e uma segunda guitarra, em outras: percebi um som mais pesado, um rock mais direto, e com menos influências psicodélicas que se encontravam nas primeiras músicas. O grupo havia lançado o seu segundo disco um ano antes, e essa foi a primeira oportunidade que tive em acompanha-los nessa nova fase. A combinação de Órgão e Guitarra, incorporando elementos de funk, me lembrava de alguns dos clássicos álbuns do Deep Purple, como ‘Burn’ e ‘Stormbringer’, e do clássico ‘We’re An American Band’, do Grand Funk Railroad, somando forças com uma porção de riffs que lembram a guitarra de Jimmy Page nos quatro primeiros discos do Led Zeppelin. Pra algumas pessoas, a famosa ‘praga’ da mudança de vocais poderia se tornar um pesadelo pra banda. Adicione à equação a famigerada ‘prova de fogo’, como é conhecido o 2° lançamento de cada banda, e tudo se tornava mais interessante: Conseguiria o Galo Power sobreviver à mudança de uma formação tão autêntica, e já icônica, para sua crescente base de fás? A resposta veio com a nova formação, que se mostrou tão autêntica quanto a primeira: sim.
Em novembro do mesmo ano, tive o prazer de acompanha-los, como fotógrafo, durante uma turnê de 10 dias pelos estados de Minas Gerais e São Paulo, juntamente com mais três bandas goianas (Damn Stoned Birds, Girlie Hell e Coletivo SUI GENERIS). Uma oportunidade única para os quatro grupos de excursionarem e mostrarem seus trabalhos para públicos variados. Já nas três primeiras apresentações, pude notar algumas diferenças da The Galo Power entre as demais bandas do cast: o maior número de músicas no catálogo, que os possibilitava variarem o repertório de cada apresentação (inclusive com a inclusão de algumas músicas ainda não lançadas), e o entrosamento no palco. O maior tempo de estrada contribui favoravelmente para essa situação, mas a qualidade das canções e a capacidade de cada um dos músicos, bem como seu entrosamento, define a situação ímpar da banda.
Após a turnê, já em dezembro, trabalhei novamente com eles no Goiânia Noise. Eles tocaram na mesma noite em que a Radio Moscow, aguardada banda americana (e uma das Headlines do festival), se apresentou. Como se fosse hoje, lembro-me da calorosa recepção do público. Músicas como ‘Big Mamma’ já se tornaram hits obrigatórios em cada apresentação. O público do Galo Power, ainda que não muito numeroso, é fiel.
Outra característica que me chamou a atenção nesses últimos meses, acompanhando suas apresentações, era o generoso número de canções executadas que ainda não haviam sido lançadas ao vivo. Eram três ou quatro, sendo que duas delas (Mr. Danger e Oráculo de Delfos), serão, em minha opinião, alguns dos destaques do próximo disco de estúdio. Esse álbum ao vivo, que vocês podem conferir agora, é uma perfeita prova disso: com exceção da já citada ‘Big Mamma’, todas as músicas são inéditas. E aqui, vejo mais uma grande diferença entre os primeiros discos: um maior flerte com diferentes estilos musicais, inclusive, com estilos que raramente se fundiram com o rock anteriormente, como a nossa música sertaneja. Lembrem-se dessas palavras quando escutarem a canção ‘Ser Estelar’.
O sucesso de uma banda, no concorridíssimo cenário de rock, deve-se, em muito, à sua capacidade de inovar seu som e sua imagem. A cada trabalho novo que se lança, a sobrevivência e a relevância de um grupo são marcadas pela necessidade de renovação: é preciso mostrar ao seu público que, apesar de manter-se alinhada a um estilo que os caracteriza, é a aproximação com novas e diferentes ideias que assegura a cada banda o status de verdadeiros artistas, mesclando, na mesma medida, identidade e versatilidade. Todos sabem que Goiânia é uma cidade com uma variada e diversa cena de bandas de rock. Pode-se ouvir Stoner Rock, Death Metal, Hard Rock, e inúmeras outras vertentes. E é nessa grande diversidade que se encontra a The Galo Power: oito anos de estrada e lançando esse trabalho ao vivo, enquanto segue nas gravações de seu 3° trabalho de estúdio. Se o próximo disco vai se mostrar como um ousado passo à frente, ou como um desastroso tropeço, ainda é cedo dizer. Para eles, é mais cedo ainda. Após uma audição cuidadosa dessa apresentação, contudo, imagino que esse tiro no escuro não virá a se transformar em um amargo tiro pela culatra.

Flávio Monteiro
Abril, 2015.