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Carne Doce – Dos Namorados

EP

2013

Goiânia/GO

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Sobre

 Estaríamos no escuro não fosse o abajur vermelho sobre um móvel antigo, desses herdados da avó ou comprados em um antiquário. Uma garrafa de vinho, já pela metade e alguns copos sujos: estaríamos em casa, não fosse um palco. Então ela acontece e sem levantar o rosto tira os sapatos. Na nudez dos pés e as mãos vestidas pelo microfone, agora ela é movimento e a voz que entra nos nossos corpos e quase nos arrasta. Ela é Salma Jô – além do nome, o que você precisa saber ao seu respeito por enquanto é que ela, ao lado de Macloys, sua companhia na arte de viver o cotidiano, deu nascimento a uma das coisas mais frescas e genuínas do espaço musical brasileiro: a banda Carne Doce.

 “A gente tinha seis canções, com voz e violão, chamou o Eduardo (Kolody, do Orquestra Abstrata) e ele disse: vamos produzir isso aí!” Conta Macloys Aquino, “homem percorrido de existências” – como diria o poeta Manoel de Barros. Foi a sua existência de jornalista que o permitiu fazer a divulgação eficaz do EP, quando finalizado. Foi sua existência como integrante da banda Mersault e a Máquina de Escrever – “Era uma banda de funcionário público: a gente chegava para tocar de crachá” – que o permitiu, com olhos e ouvidos viajados, trazer um tempero a mais, “umas esquisitices”, à Carne Doce. “Eu me encontrei muito, viajei muito, me realizei muito com a Mersault. Aprendi muito com os meninos.”

O exercício de ficcionalizar a experiência do amor é o que possibilita reparti-la em diversas perspectivas. Temos, por exemplo, aquele amor que prova a si mesmo na faixa Clichê Deprê, um registro do receio que acompanha a felicidade – o receio de não merecê-la – e a percepção de que um relacionamento pode se tornar, com o desgaste e o tédio, uma solidão a dois.

Encontramos também o registro de um amor leve, estado de puro encantamento, na letra de “Dos namorados”. O tema da finitude é revisitado com olhos mais brandos: se em Clichê Deprê o fim do relacionamento é razão “pra ser mais infeliz”, em Dos namorados o interesse é pelo instante. Há a certeza de que os momentos doces são finitos, mas isso, em vez de amargura, traz o desejo de aproveitá-los até deixarem de ser.

Há o amor líquido, stalker e “social media” em Corrente, um diagnóstico divertido da obsessão que as redes sociais, com sua ilusão de vitrine e de distâncias encurtadas, podem alimentar nos apaixonados. Por fim, há o amor em combustão que faz inflar as carnes e abrir as pernas, na letra de Cavalgada. O entrelaçamento de um erotismo animal à doçura do afeto culmina em um dos versos mais inspirados do EP – e que desperta em quem escuta o desejo de saltar sobre o vazio até não sobrar nada de si além da pele espalhada pelo ar.

Uma das lentes entre seus olhos e o mundo é o filósofo francês Michel Foucault, cuja obra “Vigiar e Punir” a guiou durante a escrita da monografia com a qual se formou em Direito. As preocupações foucaultianas ressoam nas duas músicas preferidas do público do show: Fruta Elétrica e Dignos. A primeira trata de uma situação corriqueira: um vizinho reclama de uma árvore cujos galhos ultrapassam os muros. A fruta que ameaça a cerca elétrica serve como uma perspicaz metáfora dos corpos humanos insubmissos que desafiam continuamente as cercas entre as quais a sociedade em que vivemos é construída.

Se Fruta Elétrica com sua melodia que entra na pele e quase nos impele a exorcizar com dança todas as restrições que nos são impostas, Dignos tem uma melodia que nos revela a dimensão trágica da condição de um corpo que não aguenta mais. A letra trata dos corpos dóceis: todos nós que nos subtemos a uma rotina de pressa, trabalho e consumo ao fim da qual não sobra fôlego sequer para nos perguntarmos se há uma saída. Uma letra de estatura surpreendente que insere a dupla entre os grandes compositores brasileiros. Por esse estar “entre”, seria inadequado falar em influências e qualquer tentativa de comparação poderia nos distanciar daquilo que Carne Doce tem de único: o impulso transgressor do novo com a excelência artística daqueles que chegaram antes.

Wigvan Pereira