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D E R I V A SONS – D E R I V A SONS

 

Álbum

2015

Belo Horizonte/MG

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Sobre

Há diversos desafios que se apresentam aos jovens compositores brasileiros ligados ao contexto da música contemporânea de concerto. Logo de início, observa-se uma enorme desarticulação das instituições envolvidas com a produção artística e montagem de eventos. Isso está diretamente relacionado ao modus operandi das agências de financiamento. Devido à inviabilidade comercial desse tipo de música no que diz respeito a uma relação direta com o consumidor, torna-se imprescindível a presença de algum tipo de mecenato. Entretanto, o perfil atual dos mecanismos de subvenção é perverso pois, ao mesmo tempo em que se apoia em uma hipotética neutralidade na concorrência de todos os tipos de propostas vindo dos mais diversos segmentos sociais, finge ignorar o massivo retorno publicitário das produções mais populares às empresas financiadoras. Essas são algumas das razões que obrigam a música contemporânea de concerto a se refugiar dentro dos muros da universidade pública. Mas os espaços externos precisam ser atingidos. No começo do século XX, Adorno já havia nos advertido sobre os paradoxos vividos pela música mais radical: por um lado, sua expressividade alimentava-se da recusa em ceder espaços a uma escuta domesticada; por outro, o isolamento criado em consequência dessa escolha implicava em um afastamento prolongado de um público mais diversificado. Com o tempo, as próprias motivações sociais dessa forma de arte ficam enfraquecidas. Por isso, torna-se muito importante construir um espaço de diálogo com o público em um território aberto, desprotegido. E o próprio sentido do trabalho se enriquece com o embate das propostas e respostas heterogêneas. Ultrapassa-se, desse modo, um discurso estético demasiadamente arbitrário e autossuficiente.
Outro desafio enfrentado pelos jovens compositores diz respeito a como se situar diante de duas grandes ideologias herdadas do modernismo do século XX. A primeira é iconoclasta e, como uma esfinge, devora todas as propostas que apresentem traços tradicionais, ou que revelem suas influências de um modo claro e explícito: é a exigência do utópico “novo”. O risco aqui é de um primitivismo autoindulgente e sem espessura expressiva, justamente porque despreza-se a história. A segunda, ao contrário, exige uma filiação devidamente documentada de alguma linhagem considerada “nobre” na história da música contemporânea. Nesse sentido, torna-se fundamental deixar nas partituras vestígios rastreáveis de procedimentos técnicos reconhecidos, como séries, espectros, permutações, aleatoriedade, etc. O grande perigo aqui reside em um academismo sem expressividade. É sempre difícil encontrar um caminho interessante entre essas duas forças contraditórias e hostis. Acredito que ele passa, necessariamente, pelo cultivo de algumas fantasias peculiares a cada artista. É preciso resistir àquelas pressões genéricas e impessoais com escolhas singulares e deixar surgir, aos poucos, uma paisagem musical que adquire sua consistência justamente no enlaçar das forças objetivas dos materiais sonoros com as ressonâncias afetivas que eles despertam em cada criador, de um modo pessoal e ao mesmo tempo dinâmico.
Diante desse contexto, a formação de um grupo de jovens compositores, recém egressos da graduação em composição musical (UFMG), ao redor de uma proposta coletiva – atuar nos campos de criação, performance e produção musical – revela-se muito importante e especial. O Derivasons já existe há algum tempo, com apresentações em diversas oportunidades e contextos, mas lança agora seu primeiro CD. Para a gravação foram convidados diversos intérpretes, de modo que podemos dizer que, neste CD, o Derivasons apresenta seus compositores. O primeiro aspecto que me chama a atenção é a diversidade de estilos e propostas. Há homenagens ao cinema – Mario Peixoto e Fellini – e aos quadrinhos – Watchmaker; há solos, peças para conjunto de câmara e verifica-se mesmo a presença da eletroacústica; transita-se do modal ao ruído, passando pelos afetos mais diversos. Essa multiplicidade reforça a percepção de que não se trata de uma reunião ao redor de uma estética, mas sim de uma práxis. Trata-se de reunir forças para enfrentar os inúmeros obstáculos e buscar o florescimento do potencial criativo de cada um de seus membros.
Os dois movimentos para quinteto de sopros de Marcos Sarieddine – Para Mario Peixoto e Para Fellini – apoiam-se na recorrência de idéias simples que se transformam no tempo. No primeiro, um tema modal é repetido em frases progressivamente expandidas. Após algumas interrupções desse processo por breves motivos rítmicos, as duas idéias – melodia e ritmo – se combinam, gerando maior fluência e continuidade. O segundo movimento explora o contraste legato x staccato de uma figura em ostinato que é submetida a variações harmônicas, de instrumentação e de densidade. Em algumas passagens, o tratamento do material acaba constituindo uma terceira “homenagem”, desta vez velada, a Villa-Lobos.
Em Watchmaker, Renan Fontes explora os poderes do personagem em viagens no tempo através de uma transposição musical na forma aberta. As seções de sua peça podem se encadear de diversas maneiras, seguindo distintas trilhas temporais. Em cada trecho, o violino solo desenvolve algum tipo diferente de material sonoro – pedais, glissandi, pizzicato, gestos accelerando, etc – que retorna transformado em outros momentos, às vezes em planos secundários na hierarquia da textura.
Jurema N° 1, de Luís Friche, utiliza um grupo de câmara com madeiras, piano e cordas, Há duas texturas claramente diferenciadas que se alternam. Na primeira, um fagote desenha uma melodia calma sobre um grupo de cordas tremolando. Os demais instrumentos são incorporados, pouco a pouco, de modo a crescer a sonoridade. Na segunda, de andamento mais acelerado, o clarinete desenha figuras melódicas em um registro médio/agudo sobre um fundo quase percussivo de piano e pizzicatos de cordas. Na última aparição dessa textura, observa-se uma filtragem progressiva da sonoridade, de modo a desaparecer a melodia e restar apenas um acorde repetido, cercado de pausas. Após essa dissolução, ouve-se uma variação da textura inicial, mas desta vez com o clarinete, com função de coda.
Em Interrogação, Nathália Fragoso explora um set percussivo em sonoridades que se alternam entre trechos calmos e ressonantes, sem um pulso definido, e trechos mais pulsados e dinâmicos. Um jogo de cores tímbricas – ora mais escuras e opacas, ora mais luminosas e brilhantes – contribui para a definição expressiva dos ambientes. A peça evolui progressivamente para uma textura quase obsessiva no final, com a solista se desdobrando em diversos planos rítmicos.
À Sós, de Marcos Braccini, é uma versão de uma peça anterior de oboé para violoncelo solo. Na transcrição, todo um conjunto de recursos técnicos do cello – cordas duplas, harmônicos, variações de arcadas, etc – é mobilizado em função de uma expressividade que explora as precipitações e detenções do movimento melódico. Há gestos rápidos e elementos que retêm o fluxo temporal através da repetição de notas ou de intervalos. A idéia central que conduz a forma em seu desdobramento parece ser justamente esse jogo de velocidades variáveis.
Em Ser Ruído, Thais Montanari acopla dois planos sonoros – instrumental e eletroacústico – na constituição de sua textura sonora. Poder-se-ia dizer contraponto, mas aqui não se trata de “pontos” em relação e sim de camadas complexas que se fundem em diversos momentos. Para isso, através de técnicas extendidas, os instrumentos são transformados em máquinas ruidosas – na tradição dos intonarumori de Russolo – e metamorfoseiam suas notas e ritmos em uma paisagem sonora eletroacústica.
Este CD é um momento especial: que o Derivasons prossiga seu trabalho com novas produções e consiga multiplicar os projetos musicais de seus compositores. Nesses dias de marasmo cultural, onde o sucesso popular constrói-se sobre propostas tão assustadoramente limitadas, precisamos cada vez mais de uma música especulativa e fantasiosa, que estimule nossa imaginação e nos ajude a sonhar.