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Pata de Elefante – Bota de Perna Taguatinga

Pata de Elefante – Bota de Perna Taguatinga

 

EP

2014

Taguatinga/DF

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Sobre

Certamente algumas experiências musicais só podem ser absorvidas durante o show. O show é a fotografia de um momento irreproduzível, em que a união de todas as variantes do presente se somam para compor o cenário musical que só existiu dessa forma específica apenas naquele exato momento. O show funciona pela linguagem imediata de troca de informação entre quem se apresenta e quem assiste, e essa situação não pode se repetir exatamente na apresentação seguinte, mesmo que o mesmo show seja tocado amanhã.

A importância catártica de um bom show pode ser libertadora, e seu poder muitas vezes pode atingir todos de em uma sala ao mesmo tempo, imprimindo uma curiosa atmosfera geral de união por estarem todos ali compartilhando aquele momento. Mas além do lado emocional causado por um bom show, ele também é um tira-teima preciso de como a banda realmente é (ou meramente como está), pois sem os recursos de um estúdio de gravação para polir as decisões artísticas, os músicos não possuem outra opção a não ser serem diretos. Bandas com álbuns incríveis soavam completamente diferentes encima do palco, e se não fosse pela sacada da molecada que entrava com gravador escondido e registrava o momento, quem não viveu pra ver um desses super trunfos do rock não poderiam compartilhar essa experiência.

Com isso em mente, em 2010 decidi que queria ter o hábito de fazer a mesma coisa, não só pros outros, mas pra mim mesmo. Eu queria poder reviver as experiências boas de um show cabuloso, e ainda de quebra, registrar as bandas do meu tempo, da minha cidade e dos meus amigos. Então arranjei um bom gravador de mão e comecei a registrar toscamente aqueles recortes temporais irreproduzíveis. Toscamente porém verdadeiramente, o registro sempre vem com os barulhos paralelos, afinal de contas, um show de rock não é uma experiência silenciosa. Tem o Bêbado gritando do lado, o bróder das antigas que você não via a uma data, o comentário do amigo músico que sabe perceber as nuances do que ta acontecendo tecnicamente.

E um dia, a Pata de Elefante passou por Brasília e pisoteou quem tava em Taguatinga, como eles normalmente faziam. Era o segundo show que eu assistia deles, então sabia o que esperar, mas pela primeira e última vez veria a força do trio em casa de show pequena, com o palco bem na cara. Agora que a banda acabou, ainda bem que não deixei de ir. A banda mandou seu instrumental fortemente calcado no rock clássico, com aquela pegada setentista que mistura bluezeira e peso numa fórmula que raramente desliza. Mas os caras não exploram só peso e proficiência instrumental, eles tem a manha de criar riffs melodiosos que grudam na cabeça tão bem quanto qualquer refrão cantado. Mas enfim, aquele dia a lotação do América Rock Club consistia em bêbados e estudiosos do rock, dando a cara a tapa e gritando bobagem, do jeito que um bom show de rock costuma ser. Eles chegaram já tocando pesado e ALTO, naquele estilo Cream de ser. Entre a roqueiragem habitual de bom gosto que costuma aparecer nos shows que valem à pena, tava o lendário baterista da Patrulha do Espaço, Rollando Castello Jr, que na época morava em Brasília. Não lembro como a noite acabou, mas o dever tava cumprido e soltei o som bruto, sem nenhum tratamento ou edição, no mini blog que eu tinha na época. Agora o Mini Stereo da Contra Cultura pegou o registro tosco e passou pelo filtro de mãos mais hábeis pro áudio ficar mais descente.

Hoje em dia meu gravador tá quebrado depois de uma tentativa alcoolizada de gravação em alguma edição do Goiânia Noise. Assim, meus dias de pirateador de shows estão em suspensão.

Gravado por Márlon Tugdual no América Bar em janeiro de 2011 Masterizado por Eduardo Kolody